Brasil importa e exporta lixo. Há quem diga que é fundamental para a economia.
Rende empregos. Mas o preço pode ser muito alto.
Dias e dias cruzando o oceano. Entre o céu e o mar, bilhões de reais em mercadorias flutuam de um país a outro. Na logística do comércio global, nem tudo que atraca no porto parece obedecer à lógica.
“Já recebemos resíduo industrial proibido, resíduo doméstico. Nós não podemos nos tornar um país que recebe descarte de outros países”, diz a chefe do Ibama na Baixada Santista Ingrid Oberg.
No maior porto do Brasil, não há fiscais do Ibama que vistoriem as importações, apenas as exportações. A apreensão de lixo depende de denúncia anônima, ou da desconfiança de fiscais da Receita Federal.
Só quando o sistema de comércio exterior aponta suspeita de fraude na importação, os conteineres são abertos - uma minoria.
“Não temos como fiscalizar toda a carga que chega ao país. Isso não se faz em lugar nenhum do mundo. O comércio tem que fluir. Sempre há o risco de se continuar a chegar lixo no Brasil, infeliz, como há risco de droga continuar chegando”, aponta o inspetor da Receita Federal no Porto de Santos José Antonio Gaeta Mendes.
No mundo inteiro, milhões de toneladas de lixo atravessem as fronteiras todo ano. Boa parte sai de países ricos, que têm coleta seletiva bem desenvolvida, e vai para países em desenvolvimento, como o Brasil, onde a indústria de reciclagem ganha músculos.
Andrew Higham, chefe da unidade de crime da agência ambiental britânica, afirmou que o Reino Unido é líder mundial na luta contra o comércio ilegal de lixo. Disse também que o país não vai permitir o despejo de lixo em países subdesenvolvidos.
Mas o Brasil também é exportador de lixo. Vendemos para fora principalmente peças de computadores e celulares velhos.
“Hoje o maior receptor de sucata eletrônica é a Ásia. Como o pessoal lida com isso? A maioria separa aquilo que interessa comercializar e o que não interessa toca fogo a céu aberto, em um lixão, e toca as cinzas para dentro de um rio”, explica o diretor do Greenpeace Brasil Marcelo Furtado.
O comércio global de lixo tem regras internacionais desde 1992. A Convenção da Basiléia, firmada na Suíça, restringe a exportação de lixo tóxico mas libera a de materiais usados para reciclagem. A lei brasileira segue a mesma linha. Por isso, muita sucata do resto do mundo vem parar por aqui.
“Trazemos essa sucata de fora porque existe uma demanda muito forte no país por essa sucata e a oferta de lata usada de alumínio é menor que a demanda. Por isso a importação”, explica o gerente de fábrica de alumínio Marcelo Csuka.
Suco de El Salvador, cerveja dos Estados Unidos e até de Cuba. O Brasil importa todo esse lixo e paga muito bem por ele. Uma tonelada de lata de alumínio usada chega a custar R$ 2,6 mil.
A indústria de plástico é outra que importa sucata. Os flocos de pet viram tecidos, vassouras e embalagens. As empresas compram pet usado de outros países porque no Brasil apenas 60% das garrafas são coletadas.
O Ministério do Comércio Exterior, que libera a licença de importação, não vê problemas na compra da sucata.
“Alguns desses itens são insumos essenciais para simplificar o processo produtivo, principalmente de siderúrgicas. Tanto assim que alguns países criam dificuldades para exportação desses itens”, afirma o secretário de comércio exterior Welber Barral.
“A importação de sucata revela uma falha muito grave, uma falência das instituições brasileiras e da organização dos municípios para a reciclagem do lixo”, comenta o especialista em lixo e reciclagem Sabetai Calderoni.
Nada contra os negócios, mas em termos de comércio global, o Brasil e o mundo têm coisa melhor para comprar e vender.

English Version


Days and days crossing the ocean. Between sea and sky, billions of dollars in goods fluctuate from one country to another. The logistics of global trade, not everything that docks at the port seems to follow the logic.
"We have received industrial waste prohibited household waste. We can not make a country that receives discharge of other countries, "says the head of IBAMA in Santos Ingrid Oberg.
In the largest port in Brazil, IBAMA's no tax to inspect imports, only exports. The seizure of garbage depends on anonymous tip, or the suspicion of tax the IRS.
Only when the foreign trade system indicates suspicion of fraud in the import, the containers are opened - a minority.
"We can not inspect all cargo that arrives in the country. This is not done anywhere in the world. The trade has to flow. There is always the risk of continuing to get junk in Brazil, unfortunate, as there is risk of further drug coming ", says the Internal Revenue Service inspector at the Port of Santos Jose Antonio Gaeta Mendes.
Worldwide, millions of tons of trash from crossing the borders every year. Much comes from rich countries, which have selective collection well developed, and goes to developing countries like Brazil, where the recycling industry earns muscles.
Andrew Higham, head of the crime unit British environmental agency, said that the UK is a world leader in the fight against illegal trade waste. He also said the country will not allow the dumping of waste in developing countries.
But Brazil is also exporting garbage. Sell out mainly pieces of old computers and mobile phones.
"Today the largest recipient of electronic scrap is Asia. As the staff deals with it? Most separating what matters and what does not sell rings open fire in a garbage dump, and touch the ashes into a river, "explains the director Marcelo Furtado of Greenpeace Brazil.
The global trade in waste has international rules since 1992. The Basel Convention, signed in Switzerland, restricts the export of toxic waste releases but the materials used for recycling. Brazilian law follows the same line. So much junk the rest of the world has to stop here.
"We bring that junk out because there is strong demand in the country for that junk and supply of used aluminum can is less than demand. Therefore the import, "explains plant manager Marcelo Csuka aluminum.
Juice of El Salvador, U.S. beer and even Cuba. Brazil imports all that junk and paid well for it. One ton of aluminum can get used to cost U.S. $ 2.6 mil.
The plastics industry is another matter that junk. The pet flakes saw tissues, brooms and packaging. Businesses buy pet used in other countries because in Brazil only 60% of bottles are collected.
The Ministry of Foreign Trade, which releases the import permit, sees no problem in buying junk.
"Some of these items are essential inputs to simplify the production process, especially steel. So much so that some countries create problems for exports of these items, "says the secretary of foreign trade Welber Barral.
"The import of scrap reveals a very serious flaw, a failure of Brazilian institutions and local government for the recycling of garbage," said the expert on garbage and recycling Shabbethai Calderoni.
Nothing against the business, but in terms of global trade, Brazil and the world have better things to buy and sell.